domingo, 3 de novembro de 2013

David White e o processo de seleção das notícias

Sara Gomes

WHITE, David. Gatekeeper: uma análise de caso na selecção de notícias. In: TRAQUINA, Nelson (Org.). Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa: Veja, 1999.

No texto “O gatekeeper: uma análise de caso na selecção de notícias”, David Manning White tenta compreender a interferência dos profissionais de jornalismo no processo seletivo e na publicação de determinadas informações. Embora as notícias sejam compostas de critérios e valores e o jornalismo possua a ideia de objetividade, a escolha de uma notícia depende da subjetividade do profissional de jornalismo, que leva em consideração as suas experiências, visões de mundo, opiniões particulares e expectativas.

Gatekeeper pode ser compreendido como o porteiro, a pessoa responsável por filtrar as informações. O termo foi desenvolvido inicialmente nos Estados Unidos, em 1947, pelo psicólogo Kurt Lewin. No ano de 1950 a Teoria do Gatekeeper foi aplicada ao jornalismo por White, que decidiu estudar o fluxo das notícias na redação de um jornal de porte médio, em uma cidade do centro-oeste americano.

Neste processo, White observou a cadeia existente na seleção dos fatos: repórter – rewrinting (revisor) – chefe de seção – editor (redator telegráfico). Estes são responsáveis pelo julgamento inicial, ou seja, por “deixar entrar” ou “rejeitar” a notícia. Para compreender melhor, o autor acompanhou um jornalista e editor com 25 anos de experiência, apresentado como Mr. Gates.

Durante uma semana, Mr. Gates recebeu 12.400 polegadas de notícias, enviadas pelas agências AP, UP e INS. A partir de critérios pré-estabelecidos, como clareza, brevidade e ponto de vista, ele utilizou – no período em que foi acompanhado – apenas 1.297 (um décimo) das informações recebidas. Dentre as justificativas para a escolha de determinadas notícias e a exclusão de outras, apontam-se a falta de espaço, aspectos preventivo, moral ou ilativo.

Por não sentir-se contemplado pelas notícias criminais, o jornalista acompanhado por White decidiu não enfatizá-las no impresso. Além dessas, as sensacionalistas e de insinuação também foram evitadas. Já as matérias de interesse humano, que provocam compaixão e determinados tipos de comportamentos, bem como as notícias políticas, foram preferenciais nas seleções.

White conclui que há intencionalidade no jornalismo e que o processo de seleção das notícias é subjetivo e arbitrário, já que a produção de informações passa por diversos “gates” (portões), sob os cuidados de um jornalista.

Contexto

O artigo de White foi publicado no ano de 1950, na revista Journalism Quartely (Volume 27, número 4). Neste período, o mundo passava por inúmeras transformações, dentre elas as científicas e tecnológicas, como o uso da energia nuclear e o lançamento dos primeiros satélites artificiais. O fim da II Guerra Mundial ocasionou mudanças nos Estados Unidos que, com apoio financeiro destinado aos países destruídos da Europa Ocidental, fez penetrar, aos poucos, o estilo de vida e a cultura americana.

No Brasil, este período foi marcado pelo desenvolvimento industrial, sustentado por um Estado ativo na execução de políticas econômicas, que envolvia projetos implantados por Getúlio Vargas (1951-1954). A televisão surgiu no país no dia 18 de setembro, trazida por Assis Chateaubriand e caracterizada pela aprendizagem e pelo improviso.

Nesta época teve início a segunda fase do jornalismo brasileiro, que se caracterizou pelo modelo empresarial, além do aprimoramento das técnicas de produção. Os cursos de comunicação também começavam a surgir pelo país, como o da Escola de Jornalismo Cásper Líbero, em São Paulo, no ano de 1947, pertencente à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento, e o da Universidade do Brasil, conhecida atualmente como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1948. Em 1950, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) implantou o primeiro bacharelado em Jornalismo da Bahia, ligado ao curso de Filosofia.

O autor

David Manning White (1917-1993) era sociólogo norte-americano e especialista em comunicação. Iniciou os estudos após a Segunda Guerra Mundial. Estudou jornalismo (1947-1949), na Bradley University, onde produziu obras sobre o papel do gatekeeper na imprensa diária. Fez doutorado na Universidade de Iowa. Entre os anos de 1964 e 1949 foi para a Escola de Comunicação Pública da Universidade de Bostos e, de 1975 a 1982, atuou na Commonwealth University, na Virgínia. White é autor de 18 livros.

Referências

JAWSNICKER, Claudia. Cadernos de Jornalismo e Comunicação: iniciativa precursora de media
criticism no Brasil. Universidade Federal do Rio Grande do Sul: 2008. Disponível em http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/6o-encontro-2008-1/Cadernos%20de%20Jornalismo%20e%20Comunicacao.pdf. Acesso em 31 de outubro de 2013.

FONTOURA, Alessandra Marques Cavalcante; SANTOS, Geimison Maria dos; SOUZA, Flávio Vinícius Soares de. A Objetividade no Jornalismo: Utopia ou Realidade?. Intercom: 2009. Disponível em http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-0079-1.pdf. Acesso em 31 de outubro de 2013.

PAES, Anderson. O gatekeeper e as escolhas do noticiário internacional. Universidade Federal do Paraná (PR). Paraná: 2008. Disponível em http://paginas.unisul.br/agcom/revistacientifica/artigos_2008b/anderson_paes.pdf. Acesso em 31 de outubro de 2013.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo – Porque as notícias são como são. 2.ed. Florianópolis:  Insular, 2005. Vol.I.

WHITE, David. Gatekeeper: uma análise de caso na seleção de notícias. In: TRAQUINA, Nelson (Org.). Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa: Veja, 1999.

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